O etanol produzido a partir do milho vem se firmando como um dos principais motores de transformação do agronegócio mundial, ao integrar produção agrícola, geração de energia e fortalecimento da cadeia de proteína animal. Liderado pelos Estados Unidos, esse modelo ganha cada vez mais espaço no Brasil, que já ocupa a segunda colocação global na produção do biocombustível e amplia rapidamente sua capacidade industrial.
Dados oficiais da União Nacional do Etanol de Milho (Unem) indicam que a produção brasileira deve alcançar cerca de 10 bilhões de litros na safra 2025/26, mantendo ritmo médio de crescimento anual próximo de 20%. Já informações do Ministério de Minas e Energia (MME) apontam que o etanol de milho já representa aproximadamente 23% da produção total de etanol do país, evidenciando a importância crescente desse combustível na matriz energética nacional.
O crescimento ocorre sobre uma base agrícola consistente. O Brasil figura atualmente como o terceiro maior produtor de milho do mundo, com uma colheita próxima de 130 milhões de toneladas, segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), ficando atrás apenas dos Estados Unidos e da China. O diferencial brasileiro está no destino desse volume: uma parcela crescente deixa de ser exportada como grão bruto e passa a ser processada internamente, agregando valor à produção.
Nos Estados Unidos, cerca de 40% da safra de milho é destinada à fabricação de etanol, demonstrando o nível avançado de integração entre o campo e a indústria energética. No Brasil, embora em estágio inicial comparado ao modelo norte-americano, a expansão ocorre em ritmo acelerado e com forte tendência de crescimento nos próximos anos.
A produção nacional saltou de menos de 3 bilhões de litros há poucos anos para estimativas próximas de 10 bilhões de litros na safra 2025/26, consolidando um crescimento contínuo do setor. Atualmente, mais de 20% do etanol consumido no país já tem origem no milho — um cenário que amplia a participação do cereal em um setor historicamente dominado pela cana-de-açúcar.
No cenário internacional, os Estados Unidos seguem responsáveis por mais da metade da produção mundial. Já o avanço brasileiro é sustentado por três pilares principais: ampla disponibilidade de matéria-prima, adoção de tecnologias modernas e demanda crescente por combustíveis renováveis.
Para o produtor rural, esse novo cenário altera a lógica tradicional do mercado. O milho deixa de ser apenas uma commodity dependente das oscilações do mercado externo e passa a atender a uma demanda interna mais previsível, ligada à indústria. Essa mudança melhora a estabilidade de preços e estimula novos investimentos na cultura.
O crescimento da indústria tem impacto direto no Centro-Oeste, região que historicamente enfrentou desafios logísticos devido à distância dos portos. A instalação de usinas próximas às áreas produtoras reduz custos de transporte e fortalece a economia local.
Em Mato Grosso, maior produtor nacional de milho, o modelo já apresenta resultados expressivos. Dados do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) apontam que o estado produziu mais de 5,6 bilhões de litros de etanol de milho na safra 2024/25, consolidando-se como referência nacional no setor.
As projeções do Imea indicam que a produção total pode alcançar 8,44 bilhões de litros na safra 2026/27, sendo cerca de 7,33 bilhões provenientes do milho e 1,11 bilhão da cana-de-açúcar, reforçando a tendência de crescimento contínuo da indústria no estado.
A base dessa expansão está na elevada escala produtiva. Segundo a Conab, Mato Grosso colheu cerca de 55,43 milhões de toneladas de milho na última safra, com aproximadamente 13,9 milhões de toneladas destinadas à indústria de etanol, indicando uma mudança estrutural no destino da produção agrícola.
Os efeitos positivos também são percebidos fora do campo. Dados da Secretaria de Estado de Fazenda de Mato Grosso (Sefaz-MT) apontam que a cadeia do etanol de milho foi responsável por gerar mais de 147 mil empregos e arrecadar cerca de R$ 833,6 milhões em ICMS em 2025, consolidando o setor como um dos pilares da economia regional.
Além do combustível, o processamento do milho gera subprodutos estratégicos para a pecuária. Em 2025, foram produzidas cerca de 2,7 milhões de toneladas de DDG (grãos secos de destilaria) — insumo amplamente utilizado na alimentação animal — contribuindo para reduzir custos e aumentar a eficiência da produção de carne.
A estrutura industrial acompanha o crescimento do setor. Mato Grosso já conta com 12 usinas em operação, além de novos empreendimentos em construção e projetos em fase de planejamento. Em nível nacional, o Brasil soma mais de 25 biorrefinarias, com investimentos estimados em mais de R$ 40 bilhões previstos para os próximos anos, segundo dados do setor industrial.
Na prática, o país vive uma mudança significativa no modelo produtivo do agronegócio. O Brasil mantém sua posição de destaque como grande produtor de grãos, mas avança cada vez mais na industrialização da produção — e o etanol de milho se consolida como uma das principais ferramentas para ampliar valor e fortalecer a cadeia produtiva dentro do próprio território.