Durante depoimento prestado nesta terça-feira (20), o advogado Paulo Roberto Gomes dos Santos, de 53 anos, negou ter atropelado a servidora aposentada da Politec Ilmes Dalmis Mendes da Conceição, de 72 anos, morta após ser atingida na Avenida da FEB, em Várzea Grande. A oitiva ocorreu na Delegacia Especializada de Delitos de Trânsito (Deletran), em Cuiabá.
De acordo com o investigado, que conduzia uma picape Fiat Toro, a pedestre teria colidido contra a lateral do veículo ao atravessar a via. Em declaração ao delegado Christian Cabral, ele alegou que se sentia mal no momento do acidente e que teria percebido apenas um “vulto”, sustentando que “foi a idosa quem o atropelou”.
As imagens analisadas pela polícia, no entanto, contradizem a versão apresentada. Segundo a Deletran, os registros mostram que o veículo trafegava em alta velocidade, sem qualquer tentativa de frenagem ou desvio. Com o impacto, a vítima foi arremessada para a pista contrária e acabou sendo atingida por um segundo automóvel.
Ainda conforme a investigação, o motorista deixou o local sem prestar socorro. Ele foi localizado horas depois no Várzea Grande Shopping, onde recebeu voz de prisão em flagrante. Paulo Roberto foi autuado por homicídio doloso, na modalidade de dolo eventual, além de responder por fuga do local do acidente.
Passado de crimes e uso de nome falso
A identificação do condutor reacendeu a atenção das autoridades para o histórico criminal do advogado. A trajetória de Paulo Roberto teve início em 1998, no Rio de Janeiro, quando ele atuava como policial e foi acusado de matar um delegado com um disparo na nuca. Após o crime, ele fugiu para Mato Grosso e passou a utilizar a identidade falsa de Francisco de Ângelis Vaccani Lima.
Sob o nome falso, estabeleceu-se em Rondonópolis, onde abriu comércios, constituiu família e manteve vida social ativa por anos sem ser descoberto. Em 2004, contudo, voltou a protagonizar um crime de grande repercussão.
Na ocasião, suspeitando de traição, Paulo Roberto atraiu a estudante Rosimeire Silva, de 19 anos, para uma viagem até Juscimeira. Em um motel, ele a matou e ocultou o corpo. Partes foram lançadas no Rio São Lourenço e no Rio das Mortes; a cabeça da vítima nunca foi localizada. Antes de ser identificado como autor, chegou a manter contato com familiares da jovem, demonstrando falsa solidariedade.
Quando foi intimado pela Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), tentou fugir pulando da janela do quarto andar do prédio da polícia, sofrendo fraturas nas duas pernas. Durante o atendimento hospitalar, os investigadores confirmaram sua verdadeira identidade e a ligação com o homicídio ocorrido no Rio de Janeiro.
Condenação, liberdade e atuação como advogado
Em 2006, Paulo Roberto foi condenado a 13 anos de prisão pelo assassinato do delegado e a 19 anos pelo homicídio da estudante. Ele obteve liberdade em 2011. Já formado em Direito, passou a atuar como advogado e chegou a defender réus em casos de homicídio, inclusive um acusado de duplo assassinato.
À época, declarou à imprensa que havia “pago pelo que fez” e que teria se aproximado da religião após cumprir quatro anos e quatro meses em regime fechado. Em razão das condenações, seu registro profissional chegou a ser cassado. No entanto, em consulta realizada nesta terça-feira, o cadastro na Ordem dos Advogados do Brasil constava como regular.
Novo crime sob investigação
Para a Polícia Civil, o comportamento do advogado após o atropelamento reforça a tipificação de dolo eventual. Segundo o delegado Christian Cabral, as imagens mostram que o motorista seguiu viagem “como se nada tivesse ocorrido”, mesmo após atingir a vítima, que foi lançada contra a pista oposta e atropelada por uma Fiat Strada.
O inquérito segue em andamento, e o caso voltou a gerar forte repercussão devido ao histórico criminal do suspeito e à gravidade das circunstâncias que cercam a morte da servidora aposentada.
Vídeo: Repórter MT
Entrevista do Delegado Cristian Cabral ao repórter Serginho Lapada: