O júri popular de Gilberto Rodrigues dos Anjos começa nesta quinta-feira (7), no Fórum da Comarca de Sorriso (MT), quase dois anos após o assassinato brutal de Cleci Calvi Cardoso e suas três filhas: Miliane, de 19 anos, Manuela, de 13, e Melissa, de apenas 10. O caso, que causou comoção nacional, envolve um réu confesso e reincidente, com histórico de crimes graves que poderiam ter sido evitados caso mandados de prisão anteriores tivessem sido cumpridos.
Desde que perdeu a esposa e as filhas em novembro de 2023, Regivaldo Batista Cardoso, marido de Cleci, vive um cotidiano de dor, reclusão e luta por justiça. Ele não voltou mais à casa onde a chacina ocorreu, mora com a sogra e sobrevive com trabalhos informais, enfrentando a saudade com apoio da fé, da família, da terapia e de recordações que guarda com carinho.
Apesar da condenação não trazer a família de volta, Regis, como é conhecido, diz esperar que o julgamento sirva ao menos como resposta à sociedade. Ele também move uma ação indenizatória contra o Estado, alegando omissão diante do histórico violento de Gilberto — que já havia sido condenado por homicídio em 2013 e estupro com tentativa de feminicídio em 2023, mas permanecia solto.
De acordo com Regis, há documentos e provas de que o acusado circulava livremente em locais públicos mesmo após os crimes anteriores. Para ele, a tragédia que destruiu sua família poderia ter sido evitada. “Existe um responsável por essa falha. Estamos buscando responsabilização”, afirma.
O vínculo com a família permanece vivo por meio de objetos, vídeos e áudios guardados com carinho. As roupas e brinquedos das meninas foram levados para a nova casa, e os bichos de pelúcia continuam com ele. Os registros no celular servem como um alento para as memórias que resistem ao tempo. “A saudade aumenta, mas ouvir as vozes delas conforta um pouco o coração”, relata.
Frequentador assíduo de sessões de terapia, Regis também encontra na fé cristã o suporte emocional para seguir em frente. Ainda que a dor permaneça, ele afirma que tem aprendido a conviver com a ausência. “Tem dias em que é impossível conter o choro, mas não desistir de viver é a forma que encontrei de honrar a memória delas”, desabafa.
As visitas ao cemitério, onde repousam os restos mortais da esposa e filhas, tornaram-se parte da rotina. Para ele, o que está enterrado ali é apenas o corpo; o espírito da família, acredita, está com Deus. “Não é fácil, mas sigo firme, confiando que um dia nos reencontraremos.”
O julgamento
A sessão do Tribunal do Júri será presidida pelo juiz Rafael Deprá Panichella, da 1ª Vara Criminal de Sorriso, e contará com sete jurados, além da atuação do Ministério Público e da defesa do acusado. Por conta da gravidade do caso e do conteúdo sensível das provas, o acesso ao plenário será restrito a familiares previamente cadastrados, defensores, promotores, jurados e jornalistas autorizados. O uso de equipamentos eletrônicos e a gravação de imagens ou áudios no local estão proibidos.
Ainda não há previsão de quanto tempo o julgamento deve durar até a leitura da sentença.

Relembre o caso
O crime ocorreu no dia 24 de novembro de 2023. Gilberto invadiu a residência da ex-companheira Cleci Calvi Cardoso e assassinou ela e suas três filhas. Os corpos foram localizados somente três dias depois, após o marido de Cleci, que estava em viagem, perceber o silêncio da família e acionar a polícia. O autor foi encontrado escondido em uma obra ao lado da casa e preso em flagrante.
Além da chacina em Sorriso, Gilberto possui outras condenações. Em maio de 2025, foi sentenciado a 17 anos de prisão pelo homicídio do jornalista Osni Mendes Araújo, cometido em 2013, na cidade de Mineiros (GO). Na ocasião, ele chegou a ser preso, mas foi liberado e permaneceu foragido.
Também foi condenado em março de 2025 por estupro, tentativa de feminicídio e lesão corporal, crimes praticados em setembro de 2023, em Lucas do Rio Verde. Segundo a denúncia, Gilberto invadiu a casa de uma mulher durante a madrugada, a violentou e tentou matá-la. A pena foi fixada em 22 anos, 7 meses e 10 dias de reclusão.
Mesmo após dois crimes graves e sentenças anteriores, será somente agora que Gilberto enfrentará o julgamento pelo caso que destruiu a vida de uma família inteira — e expôs as falhas do sistema penal em impedir que ele voltasse a matar.