A cada clique, mensagem ou partida iniciada em um jogo online, milhares de crianças e adolescentes mergulham em universos digitais que, embora pareçam seguros e divertidos, escondem ameaças muitas vezes invisíveis aos olhos dos pais. O ambiente virtual, cada vez mais presente na rotina dos jovens, oferece não apenas entretenimento, mas também riscos sérios à segurança, ao desenvolvimento emocional e à saúde mental.
Com o avanço da tecnologia e o fácil acesso a smartphones, tablets e computadores, o número de menores conectados à internet cresce exponencialmente. Dados recentes do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) apontam que cerca de 90% das crianças entre 9 e 17 anos acessam a internet regularmente, sendo que grande parte delas utiliza redes sociais, aplicativos de mensagens e jogos online.
Uma das principais ameaças enfrentadas por crianças e adolescentes na internet é o aliciamento virtual, prática em que criminosos se passam por outras pessoas — geralmente com perfis falsos — para ganhar a confiança da vítima e iniciar conversas de cunho sexual ou manipulativo.
“Esses predadores digitais se aproveitam da ingenuidade dos jovens, muitas vezes fingindo ser adolescentes ou jogadores experientes para iniciar o contato”, explica a psicóloga infantil Camila Tavares, especialista em comportamento digital. “A partir daí, estabelecem um vínculo que pode evoluir para situações extremamente perigosas, como troca de fotos íntimas e até encontros presenciais.”
O impacto psicológico desses casos é devastador. Vítimas de aliciamento online costumam desenvolver sintomas de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), depressão, sentimentos de culpa e baixa autoestima, o que exige acompanhamento psicológico intensivo e, muitas vezes, de longa duração.
Cyberbullying e pressão social
Outro fenômeno preocupante é o cyberbullying, agressão psicológica que ocorre por meio de mensagens, comentários ofensivos, exclusão de grupos virtuais ou humilhações públicas. Redes sociais e chats de jogos online são ambientes propícios para esse tipo de violência, muitas vezes invisível para os adultos.
“Quando o bullying acontece na escola, há testemunhas. No ambiente digital, ele é silencioso e contínuo, o que pode agravar o impacto emocional na vítima”, afirma o promotor de Justiça Renato Silveira, do Ministério Público de São Paulo.
Adolescentes que sofrem cyberbullying frequentemente desenvolvem ansiedade, isolamento social, distúrbios do sono, e ideações suicidas, além de queda no desempenho escolar e perda do interesse em atividades antes prazerosas. O sofrimento silencioso, muitas vezes, é prolongado pela vergonha de relatar a situação aos pais ou professores.
Conteúdos impróprios, vício digital e desequilíbrio emocional
A facilidade de acesso a plataformas de vídeo, fóruns e jogos online também expõe os jovens a conteúdos violentos, sexualizados ou com mensagens discriminatórias. Mesmo em jogos aparentemente inofensivos, é possível encontrar espaços abertos para conversas com estranhos, onde circulam mensagens inapropriadas ou perturbadoras.
Além disso, o uso excessivo de telas tem se tornado uma preocupação crescente entre pais e educadores. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), crianças de até 5 anos não devem passar mais de uma hora por dia diante de telas, enquanto adolescentes devem manter o equilíbrio entre atividades digitais, físicas e sociais.
A exposição prolongada pode afetar diretamente o bem-estar emocional, desencadeando sintomas como irritabilidade, déficit de atenção, alterações de humor e problemas de regulação emocional. Em casos mais severos, há relatos de dependência digital, caracterizada por abstinência quando desconectados, compulsão por jogos e prejuízo na vida social e familiar.
Jogos com mecânicas de recompensa, como as populares loot boxes, também são apontados como fatores que estimulam o vício, além de aproximarem os jovens de práticas semelhantes a jogos de azar.
Como proteger os jovens?
Especialistas apontam que a chave para a segurança digital de crianças e adolescentes está na combinação entre educação, diálogo e monitoramento consciente.
“Não basta proibir o uso. Os pais precisam estar presentes no mundo digital dos filhos, conversar sobre os riscos, orientar sobre a privacidade e estimular o pensamento crítico”, orienta Camila Tavares.
Entre as medidas recomendadas estão o uso de aplicativos de controle parental, limite de tempo de tela, definição de horários para o uso de dispositivos e, principalmente, um ambiente familiar aberto à escuta e ao acolhimento.
A escola também tem papel fundamental na conscientização digital, promovendo debates, oficinas e ações de prevenção à violência virtual.
Conclusão
Em um mundo cada vez mais conectado, proteger crianças e adolescentes dos perigos virtuais é uma tarefa que exige atenção contínua, empatia e responsabilidade compartilhada. A tecnologia pode — e deve — ser uma aliada no desenvolvimento infantojuvenil, mas é preciso garantir que ela não comprometa a saúde mental e a segurança daqueles que ainda estão formando sua identidade e compreensão de mundo.