A Páscoa de 2025 promete pesar mais no bolso dos consumidores brasileiros. O preço do chocolate deve aumentar significativamente devido à crise global do cacau, que viu sua cotação quase triplicar nos últimos anos. Segundo estimativas da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), os chocolates ficarão, em média, 27% mais caros, enquanto bombons terão aumento de 13,5% e os tradicionais ovos de Páscoa subirão 9,5%.
O valor de referência do cacau negociado na Bolsa de Nova York registrou um aumento vertiginoso de aproximadamente 180% desde março de 2023. A cotação, que estava em cerca de US$ 2,9 mil por tonelada, saltou para mais de US$ 8 mil no final da semana passada. Em dezembro de 2024, o preço chegou a atingir o pico histórico de US$ 12.565 por tonelada, justamente no período em que fabricantes de chocolate adquirem insumos para a produção dos meses seguintes.
A valorização do cacau está diretamente relacionada aos desafios enfrentados por Gana e Costa do Marfim, responsáveis por 70% da colheita mundial do fruto. Ambos os países africanos têm sofrido com perdas significativas de safra devido às mudanças climáticas, que afetam os campos de produção.
Anna Paula Losi, presidente-executiva da Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC), explica que o Brasil é particularmente vulnerável a essa crise. "O Brasil produz em média 190 mil a 200 mil toneladas ano. Só que a indústria moageira — que compra o cacau, faz os derivados e vende para a indústria chocolateira — processa em média 230 mil a 240 mil toneladas", destaca.
Déficit de produção se agrava
Dados da AIPC mostram que o recebimento das amêndoas de cacau recuou 18,5% no ano passado, caindo de 220.303 toneladas em 2023 para 179.431 toneladas em 2024. A moagem também apresentou retração de 9,5%, principalmente nos resultados do último trimestre do ano.
"Nos últimos dois trimestres [de 2024], temos verificado uma queda relevante na moagem de cacau no Brasil, sinalizando uma queda na demanda dos derivados, o que possivelmente é reflexo dos aumentos dos custos de produção, em razão das altas expressivas do preço da matéria-prima no último ano", informa a associação em comunicado.
Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Chocolates, Cacau, Amendoim, Balas e Derivados (Abicab), serão disponibilizados 45 milhões de unidades de ovos de chocolate no mercado nesta Páscoa, o que representa uma queda expressiva de 22,4% em comparação ao mesmo período do ano passado.
Indústria busca alternativas
Para enfrentar essa crise, o setor chocolateiro tem buscado alternativas. Segundo Anna Paula Losi, as empresas têm evitado repassar totalmente o aumento dos custos para não afetar a demanda pelos produtos de chocolate.
Uma das estratégias adotadas é a busca por novas matérias-primas e inovação em novos produtos. Como resultado dessa diversificação, as exportações de derivados de cacau cresceram 6,2% em 2024, totalizando 50.257 toneladas, conforme dados da AIPC.
Além disso, estima-se que a indústria tenha produzido 803 itens diversos — sem contar ovos de Páscoa — nos primeiros três meses deste ano, um aumento significativo em comparação às 611 unidades produzidas no mesmo período de 2024.
Qualidade em questão
No entanto, essa estratégia de adaptação levanta questionamentos sobre a qualidade do chocolate disponível para os consumidores. Valter Palmieri Júnior, doutor em economia e professor da Strong Business School, alerta que a diminuição da oferta do cacau faz com que a indústria utilize outros ingredientes na fabricação dos produtos.
"O aumento do custo do cacau não significa que ele é repassado totalmente para o preço do chocolate. Os chocolates, tidos como de pior qualidade, têm 75% da fórmula que não é cacau. Talvez a gente sinta um aumento menor nos custos, mas a qualidade vai ficando pior", explica o especialista.
Oportunidade para produção nacional
Apesar do cenário desafiador, a crise pode representar uma oportunidade para a produção nacional de cacau. "Está existindo um esforço maior de produção nacional, porque as mudanças climáticas estão desfavorecendo a produção de cacau nos principais países produtores. Então, isso cria uma oportunidade para o produtor, mas acredito que haverá uma maior exportação", avalia Palmieri Júnior.
Anna Paula Losi, da AIPC, projeta que o país tenha uma produção maior este ano, aumentando de 170 mil toneladas em 2024 para 200 mil toneladas em 2025. Mesmo assim, o Brasil ainda enfrentará um déficit na oferta que não supre a demanda interna, continuando dependente de importações.
Para os consumidores, a recomendação é pesquisar preços e, talvez, considerar alternativas aos tradicionais ovos de Páscoa, como barras e bombons, que podem apresentar aumentos menos expressivos nesta Páscoa de 2025.