O acesso à internet alcançou o maior patamar da história recente do país, mas continua profundamente marcado pela desigualdade. A pesquisa TIC Domicílios 2025, divulgada nesta terça-feira (9), revela que 86% dos lares brasileiros estão conectados — um salto significativo em relação a 2015, quando apenas 51% tinham acesso. Isso representa 157 milhões de usuários ativos, número que sobe para 163 milhões com o uso indireto via aplicativos.
O avanço foi puxado, principalmente, pelos lares de baixa renda: nas classes D e E, a conexão passou de 15% para 73% em dez anos, com crescimento de cinco pontos apenas no último período analisado. A popularização da fibra óptica ajudou a impulsionar o acesso, consolidando-se como o principal meio de conexão no país.
Apesar disso, crescer não significou nivelar. A desigualdade digital permanece evidente, sobretudo no tipo de tecnologia usada, na qualidade do serviço e na finalidade da navegação.
Principais desigualdades identificadas pela pesquisa
Acesso por classe social
Tipo de acesso entre os mais pobres
Tecnologia utilizada
Diferenças por escolaridade
Acesso por idade
Qualidade da internet móvel
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33% relatam queda de velocidade após consumir o pacote
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Entre as classes D/E, esse índice sobe para 38%
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De 30% a 37% compram pacotes extras para continuar navegando
Uso da internet pelos brasileiros
Embora o acesso tenha se ampliado, o modo como os brasileiros utilizam a rede também apresenta mudanças importantes. O envio de mensagens instantâneas, as chamadas de vídeo e o uso de redes sociais continuam liderando as atividades online. O consumo de filmes teve leve queda, bem como o compartilhamento de conteúdos. Em contrapartida, o uso do Pix pela internet se consolidou e aparece pela primeira vez com presença significativa entre os usuários, alcançando 75% da população conectada.
A pesquisa passou a medir também o uso da internet para apostas online, prática registrada entre 19% dos brasileiros, com predominância masculina em quase todas as modalidades observadas.
Outro destaque desta edição é o uso crescente das ferramentas de inteligência artificial generativa. Segundo o levantamento, 32% dos brasileiros já utilizam IA, com forte concentração entre pessoas com maior escolaridade e renda. A diferença é expressiva: o uso chega a 69% na classe A e a 59% entre pessoas com ensino superior, mas cai para 16% nas classes D/E e para apenas 6% entre idosos.
Governo digital em expansão, mas desigual
A plataforma gov.br permanece amplamente acessada, utilizada por 56% dos brasileiros, embora o índice varie bastante entre classes sociais e regiões. Enquanto 94% dos usuários da classe A utilizam serviços públicos online, o percentual cai progressivamente até chegar a 35% nas classes D/E. No Nordeste, o uso é ainda menor, atingindo apenas 48% da população.
Os dados mostram que, embora o país tenha avançado de forma consistente na última década, a inclusão digital ainda está longe de ser igualitária. A diferença no tipo de acesso, na qualidade da conexão e na capacidade de uso da tecnologia reforça um cenário onde estar conectado não significa, necessariamente, estar plenamente incluído. Especialistas avaliam que os próximos anos serão decisivos para transformar esse crescimento num processo de inclusão real, capaz de gerar oportunidades e ampliar o exercício da cidadania digital no Brasil.