Sair da cama se torna um desafio. Atividades básicas, como tomar banho ou se vestir, exigem um esforço descomunal. O sono não vem como antes, o apetite muda, e o trabalho — que já foi motivo de orgulho — passa a parecer irrelevante. Esses são alguns dos sintomas mais comuns da síndrome de burnout, um distúrbio relacionado ao esgotamento mental e físico causado pelo trabalho.
“A pessoa entra num estado de exaustão tão grande que ações simples, como levantar ou tomar banho, se tornam tarefas quase impossíveis. Ela se arrasta.”
Burnout não é frescura — e nem é depressão
Embora os sintomas possam se parecer, burnout não é a mesma coisa que depressão. A principal diferença está no fator desencadeante.
“A depressão pode surgir em qualquer fase da vida, mesmo sem vínculo com o trabalho. Já o burnout está sempre relacionado à atividade profissional”, explica Ana Maria.
Reconhecida desde 2022 como condição ocupacional pela OMS (Organização Mundial da Saúde), a síndrome não é uma doença no sentido clínico, mas sim um conjunto de sintomas recorrentes, classificados como uma síndrome psicológica.
Como identificar o burnout?
O diagnóstico do burnout exige a presença de três elementos principais:
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Exaustão: cansaço persistente, que não melhora nem após férias ou folgas;
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Distanciamento emocional: apatia, frieza, insensibilidade ou desinteresse em relação ao trabalho;
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Ineficácia profissional: sensação de incompetência, queda de produtividade e erros constantes.
Quem está mais vulnerável?
Profissionais que ignoram seus limites, mesmo percebendo sinais de sobrecarga, estão entre os mais suscetíveis à síndrome. Segundo a especialista, fatores como jornadas excessivas, cobranças desproporcionais, falta de apoio da equipe, insegurança no emprego e metas inalcançáveis estão entre os gatilhos mais comuns.
Com o crescimento do home office, o impacto também passou a variar: enquanto alguns trabalhadores ganharam qualidade de vida, outros sentiram mais isolamento e dificuldade para separar o tempo pessoal do profissional.
Apesar da maior atenção ao tema, Ana Maria Rossi ressalta que ainda existe confusão no uso do termo
“Burnout só se aplica ao contexto profissional. Não existe burnout materno, burnout do estudante ou do idoso, como se tem falado por aí.”
Como tratar e prevenir?
O tratamento para burnout depende da gravidade dos sintomas. Pode envolver psicoterapia, uso de medicamentos (em casos mais severos) e principalmente mudanças no estilo de vida.
Mas a psicóloga faz uma ressalva: afastar-se do trabalho nem sempre resolve.
“Muitas vezes, a pessoa não tem apoio social durante o afastamento, se sente inútil e o quadro piora.”
Entre as principais formas de prevenção estão:
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Praticar técnicas de respiração e relaxamento;
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Reservar momentos de lazer e descanso;
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Estabelecer limites claros com o trabalho;
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Evitar álcool, cigarro e melhorar a qualidade da alimentação;
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Buscar apoio emocional — seja profissional ou de pessoas próximas.
E a responsabilidade das empresas?
Com o reconhecimento do burnout pela OMS, o Brasil atualizou suas normas trabalhistas. A Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) passou a exigir que empresas adotem políticas de prevenção, como evitar cargas horárias abusivas, combater o assédio moral e garantir um ambiente psicologicamente seguro.
A fiscalização dessas medidas, que seria iniciada em maio de 2025, foi adiada para maio de 2026. Mesmo assim, a expectativa é que empregadores se antecipem:
“Os gestores precisam compreender que podem ser responsabilizados juridicamente. Promover saúde mental no ambiente de trabalho deixou de ser uma escolha e passou a ser uma obrigação”, conclui Ana Maria.
Se você está enfrentando sintomas de burnout, procure ajuda psicológica. Reconhecer os sinais e buscar suporte pode fazer toda a diferença para sua saúde e bem-estar.