Nesta terça-feira (10), o Alcoólicos Anônimos (AA) completa 90 anos de existência, e uma das mudanças mais significativas em sua trajetória recente é o aumento da participação feminina nos grupos. Desde o início da pandemia, o número de reuniões destinadas exclusivamente a mulheres cresceu 44,7% em todo o Brasil. Hoje, já são cerca de 65 encontros – virtuais e presenciais – reunindo mulheres de diferentes regiões e realidades, unidas pelo desafio comum de superar a dependência do álcool. Saiba como participar de reunião dos AA 

Uma dessas histórias é a de I.F., 42 anos, moradora de Pernambuco, que há cinco anos decidiu buscar ajuda após ver uma reportagem sobre o AA. Em meio à pandemia e enfrentando uma separação, ela percebeu que a bebida havia deixado de ser algo ocasional e se tornado um refúgio diário.
“Naquele dia acordei e comecei a beber pela manhã. Foi quando vi a matéria, peguei o número e mandei mensagem. Me enviaram o link de uma reunião virtual. Era só com mulheres. Aquilo fez toda a diferença”, lembra. O acolhimento e a identificação com outras histórias femininas foram determinantes para sua decisão de continuar no grupo. Hoje, ela também participa de reuniões mistas e ajuda outras mulheres que enfrentam situações semelhantes.
Estigma e invisibilidade
Segundo a psicóloga Lívia Pires Guimarães, presidente da Junta de Serviços Gerais de Alcoólicos Anônimos do Brasil (JUNAAB), o alcoolismo feminino ainda é um fenômeno subnotificado e cercado de preconceito.
“O consumo de álcool por mulheres carrega um estigma ainda mais forte. Muitas vezes, elas bebem dentro de casa, o que torna o problema invisível para a sociedade”, afirma.
Durante a pandemia, as reuniões virtuais abriram caminho para que mais mulheres se sentissem à vontade para buscar ajuda. “O ambiente digital criou um espaço de escuta mais seguro. Muitas começaram por ali e, com o tempo, passaram a frequentar também os encontros presenciais”, explica Lívia.
Apesar de já haver planos para encontros online antes da pandemia, a preocupação com o sigilo impedia sua expansão. A emergência sanitária acelerou o processo, e o modelo híbrido se consolidou como uma importante ferramenta de acolhimento.
Recuperação e novas possibilidades
A transformação provocada pela irmandade é visível em relatos como o de R.S., 61 anos, do Piauí. Alcoolista desde a infância, ele experimentou a bebida pela primeira vez aos seis anos. Aos 28, após anos de excessos, crises e conflitos familiares, procurou ajuda no AA. Nunca mais saiu.
“Foi em 22 de abril de 1992. Estava em crise de abstinência e lembrei de um colega de trabalho que já tinha me falado sobre o grupo. Desde então, não bebi mais”, diz. Hoje, R.S. é casado, tem um filho, concluiu faculdade e pós-graduação. “Eu estaria morto se não tivesse procurado ajuda.”
Natali, 67 anos, morador de São Paulo, também conhece de perto o impacto do alcoolismo. Após a morte do pai, começou a trabalhar ainda na adolescência e a beber com regularidade. A dependência se agravou após a morte da noiva, aos 21 anos. Em 1999, encontrou no AA uma nova chance.
“Antes do grupo, eu era alguém que nem conhecia a própria capacidade. Depois que você evita o primeiro gole, a vida muda. Você descobre que pode ser quem o álcool não deixava você ser”, afirma.
Sobre o AA
Fundado em 1935 nos Estados Unidos, o Alcoólicos Anônimos é uma comunidade de apoio mútua voltada à recuperação de pessoas que enfrentam o alcoolismo. Não há mensalidades, taxas ou vínculo com religiões ou instituições. Os encontros são baseados na troca de experiências e na construção coletiva da sobriedade, sempre preservando o anonimato dos participantes.
Ao celebrar 90 anos, o AA reforça que o acolhimento e a escuta seguem sendo os principais instrumentos de transformação – e agora, cada vez mais, também entre mulheres que decidiram dar um novo rumo às próprias histórias.