O celular tornou-se parte da rotina de muitas crianças e adolescentes. Entre vídeos curtos, jogos online e redes sociais, o tempo diante das telas cresce continuamente e os reflexos já começam a aparecer na saúde emocional.
Dados do UNICEF indicam que quase 1 em cada 6 adolescentes brasileiros entre 10 e 19 anos vive com algum transtorno mental, como ansiedade ou depressão. Já a Organização Mundial da Saúde aponta que, no mundo, 1 em cada 7 jovens nessa faixa etária apresenta algum problema de saúde mental.
Especialistas explicam que a internet não é, por si só, a causa desses transtornos, mas o uso excessivo, principalmente sem acompanhamento, pode funcionar como um importante fator de agravamento.
A lógica das redes sociais é baseada em estímulos rápidos e recompensas imediatas. Notificações, curtidas e mensagens ativam mecanismos cerebrais ligados à sensação de prazer. Em jovens, cujo cérebro ainda está em desenvolvimento, isso pode favorecer comportamentos compulsivos. Muitos adolescentes passam a demonstrar irritação quando ficam sem acesso ao celular, apresentam inquietação e dificuldade de concentração em atividades fora da internet. Com o tempo, tarefas simples, como estudar ou ler, passam a parecer desinteressantes, aumentando sintomas de ansiedade.
Outro impacto frequente é a comparação constante. A exposição contínua a padrões de aparência, popularidade e estilo de vida pode gerar frustração e sensação de inadequação. Durante a adolescência, fase marcada pela formação da identidade, a aprovação virtual passa a ter grande peso emocional. A quantidade de curtidas e comentários pode influenciar diretamente a autoestima, provocando insegurança, tristeza persistente e necessidade excessiva de aceitação.
O uso do celular durante a noite também interfere no organismo. A luz emitida pelas telas reduz a produção de melatonina, hormônio responsável pelo sono. Como consequência, muitos adolescentes passam a dormir tarde e acordar cansados. A privação de sono afeta a memória, prejudica a concentração, diminui o rendimento escolar e intensifica a irritabilidade e a ansiedade. A Organização Pan-Americana da Saúde alerta que transtornos mentais representam cerca de 16% das doenças e incapacidades entre jovens de 10 a 19 anos, e a falta de sono pode agravar esses quadros.
Outro problema crescente é o cyberbullying. Ofensas, humilhações e exposição de imagens podem ocorrer a qualquer momento e alcançar grande número de pessoas. Diferentemente do bullying presencial, a agressão não termina ao sair da escola. A vítima permanece exposta continuamente, o que amplia o sofrimento emocional. Como consequência, muitos jovens passam a se isolar, evitar o convívio social e perder interesse por atividades que antes faziam parte da rotina.
Além das redes sociais tradicionais, autoridades também alertam para riscos em áreas não indexadas da internet, conhecidas popularmente como dark web. Trata-se de uma parte da rede que não aparece em buscadores comuns e onde o anonimato é maior. Crianças e adolescentes podem chegar a esses ambientes por curiosidade ou por links compartilhados em grupos e jogos online. Nesses espaços, há possibilidade de contato com conteúdos extremamente perturbadores, incentivo a comportamentos perigosos, aproximação de adultos mal-intencionados e até tentativas de golpes e extorsões virtuais, muitas vezes sem que os pais percebam.
Pais e responsáveis devem ficar atentos a mudanças comportamentais. Quando o jovem passa a reagir com irritação ao ser questionado sobre o que faz online, permanece conectado durante a madrugada, evita a família, mantém conversas secretas com desconhecidos ou apresenta alterações bruscas de humor, o ideal é iniciar o diálogo e acompanhar mais de perto o uso da internet.
Especialistas recomendam estabelecer limites de tempo de tela, manter aparelhos fora do quarto durante a noite e incentivar atividades presenciais. Caso o sofrimento emocional persista ou comece a afetar a escola e a convivência familiar, a orientação é procurar acompanhamento psicológico.
O consenso entre profissionais de saúde e educação é claro: a tecnologia não precisa ser proibida, mas deve ser utilizada com equilíbrio. A infância e a adolescência são fases decisivas para o desenvolvimento emocional, e o uso consciente da internet pode evitar consequências que muitas vezes surgem de forma silenciosa.