Uma técnica inovadora criada por um pesquisador brasileiro promete mudar o tratamento da hérnia de disco lombar ao oferecer alívio da dor sem a necessidade de cirurgia. O método consiste em uma injeção precisa aplicada diretamente na coluna, com foco no local exato da inflamação responsável pelos sintomas.
A pesquisa envolveu 99 voluntários, 45 homens e 54 mulheres, que sofriam há mais de oito semanas com sintomas persistentes provocados pela compressão dos nervos da medula espinhal. Todos já haviam passado por tratamentos conservadores, como medicamentos e fisioterapia, sem melhora clínica satisfatória.
O trabalho foi conduzido por Francisco Sampaio Júnior, médico neurocirurgião do Hospital Sírio-Libanês e responsável pelo desenvolvimento da técnica. Segundo ele, o procedimento é indicado justamente para pacientes que não respondem às abordagens tradicionais.
“É nesses casos de falha do tratamento conservador que essa técnica se mostra mais eficaz do que os métodos convencionais”, afirma.
Como funciona a técnica
A dor causada pela hérnia de disco lombar tem duas origens principais: a compressão mecânica do nervo e o processo inflamatório que surge após a ruptura do disco intervertebral. A nova abordagem atua diretamente sobre esse segundo fator.
Por meio de uma injeção epidural infraneural transforaminal com corticosteroide, o médico posiciona a agulha exatamente no ponto onde está a hérnia. Assim, o medicamento é aplicado diretamente no foco da inflamação.
“Ao atingir o local exato, o corticoide reduz a inflamação e acelera o processo de melhora clínica”, explica Sampaio.
Os corticosteroides são versões sintéticas do cortisol, hormônio produzido naturalmente pelo organismo, e estão entre os medicamentos mais potentes no combate à inflamação.
O procedimento dura, em média, de 12 a 15 minutos, é realizado com anestesia local e não envolve cortes ou pontos. Por ser minimamente invasivo, a recuperação tende a ser mais rápida e simples.
Com o passar do tempo, segundo o neurocirurgião, o fragmento do disco herniado passa por um processo de desidratação e acaba sendo parcialmente absorvido pelo corpo, reduzindo a pressão sobre o nervo e, consequentemente, a dor.
Resultados e cuidados
Os pacientes foram acompanhados por seis meses e mantiveram melhora clínica significativa na maioria dos casos. No entanto, o médico faz um alerta importante: se o procedimento não surtir efeito, ele não deve ser repetido.
“Repetir a técnica não traz benefício adicional e pode aumentar riscos, como infecção, devido às múltiplas punções. Nesses casos, a cirurgia passa a ser o caminho indicado”, ressalta.
Agulha x cirurgia
Por não exigir anestesia geral nem intervenção cirúrgica, o método apresenta menos riscos quando comparado à cirurgia tradicional, que pode envolver infecções, lesões neurológicas e complicações anestésicas.
Ainda assim, Sampaio destaca que a técnica não substitui o tratamento inicial padrão.
“O tratamento conservador deve sempre ser a primeira opção. Esse procedimento é indicado apenas quando há falha dessas abordagens e o quadro seria, tradicionalmente, cirúrgico”, explica.
Pacientes com dor intensa, incapacitante e sem resposta ao tratamento clínico são os que mais se beneficiam da técnica.
Próximos passos
Com a publicação internacional do estudo, a expectativa é que outros centros médicos passem a adotar e testar o procedimento.
“A tendência é que outros profissionais repliquem a técnica e avaliem os resultados em diferentes contextos”, projeta o pesquisador.
A próxima fase da pesquisa prevê o acompanhamento dos pacientes por períodos mais longos — de um a cinco anos — para avaliar a durabilidade dos benefícios.
Entenda a hérnia de disco
A hérnia de disco ocorre quando o disco intervertebral, estrutura que funciona como amortecedor entre as vértebras, se rompe e desloca parte do seu núcleo gelatinoso. Esse deslocamento pode comprimir nervos e causar inflamação.
O problema é mais comum na região lombar, embora possa ocorrer também na cervical, onde os riscos são maiores. Os sintomas variam conforme o nervo afetado e incluem dores na coluna, irradiação para pernas ou braços, além de formigamento.
Má postura, sedentarismo e predisposição genética estão entre as principais causas. O tratamento inicial geralmente envolve analgésicos, anti-inflamatórios, repouso e fisioterapia. Quando a dor persiste por mais de 12 semanas, a cirurgia costuma ser considerada — cenário em que a nova técnica surge como alternativa promissora.
*Com informações G1 Saúde