A dificuldade em manter o foco, cumprir prazos e organizar a rotina nem sempre é percebida como um sinal de transtorno. Para muitos adultos, esses obstáculos acompanham a vida por anos, interpretados como falhas pessoais ou falta de disciplina. Foi assim com Mara, nome fictício, que só passou a questionar o próprio funcionamento mental depois de enfrentar repetidos impasses na universidade.
Até então, sua trajetória escolar havia sido considerada normal. O desempenho em sala era satisfatório e não havia grandes problemas com notas ou aprendizado. A mudança ocorreu quando a cobrança por autonomia e concentração se intensificou. No ambiente acadêmico, estudar por longos períodos se tornou um desafio, e as distrações passaram a dominar o dia a dia.
Inicialmente, Mara acreditou que conseguiria se adaptar. Criou estratégias improvisadas e tentou acompanhar o ritmo dos colegas. Com o tempo, porém, ficou evidente que o esforço não produzia os mesmos resultados. Enquanto amigos avançavam na graduação, ela permanecia presa a atrasos, desorganização e uma sensação constante de frustração.
A busca por respostas ganhou outro rumo após um episódio depressivo. Depois de tentativas frustradas de tratamento, a psiquiatra que a acompanhava sugeriu investigar a possibilidade de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH). O diagnóstico confirmou a suspeita e trouxe um novo olhar sobre sua história. “Foi como finalmente entender algo que sempre esteve ali”, relata.
Com a confirmação, experiências passadas deixaram de ser vistas apenas como fracassos pessoais. Situações que antes geravam culpa passaram a fazer sentido dentro de um contexto clínico. “Percebi que não era preguiça nem falta de interesse, mas uma forma diferente de o cérebro funcionar”, explica.
Casos como o de Mara são cada vez mais frequentes. O diagnóstico de TDAH na vida adulta deixou de ser raro e passou a integrar a realidade de muitas pessoas. Estimativas internacionais indicam que entre 2% e 3% dos adultos convivem com o transtorno, embora durante muito tempo ele tenha sido associado quase exclusivamente à infância.
Nos últimos anos, o número de diagnósticos em adultos cresceu de forma significativa em diversos países. Especialistas atribuem essa tendência a uma maior conscientização sobre saúde mental, à evolução dos critérios médicos e ao fato de que muitos pacientes não foram identificados corretamente quando crianças.
Durante décadas, o TDAH esteve ligado à imagem da criança hiperativa e inquieta. Hoje, sabe-se que o transtorno tem forte componente genético e acompanha o indivíduo ao longo da vida, ainda que seus sintomas se transformem com o passar do tempo.
Diferenças de gênero também ajudam a explicar o diagnóstico tardio. Meninos costumam apresentar sinais mais visíveis, como impulsividade e agitação. Já meninas tendem a manifestar sintomas mais sutis, como desatenção e introspecção, frequentemente confundidos com ansiedade ou depressão.
Na vida adulta, a hiperatividade física geralmente dá lugar a uma inquietação interna persistente, enquanto as dificuldades de concentração permanecem. Essa mudança contribui para que o transtorno passe despercebido por anos.
O diagnóstico em adultos exige uma avaliação criteriosa, baseada em entrevistas clínicas, questionários específicos e na reconstrução da história de vida do paciente, incluindo a confirmação de sintomas antes dos 12 anos. Documentos antigos, como boletins escolares, costumam auxiliar nesse processo.
Além das mudanças nos métodos de avaliação, especialistas apontam fatores como o impacto da pandemia de covid-19 e a maior exposição do tema nas redes sociais como elementos que impulsionaram a busca por diagnóstico. Apesar de ajudarem a reduzir o estigma, conteúdos simplificados podem estimular autodiagnósticos equivocados.
Para quem recebe a confirmação, o diagnóstico costuma marcar um ponto de virada. No caso de Mara, a combinação de terapia e medicação trouxe alívio e melhora na rotina. “É como se a vida tivesse ficado menos pesada”, resume.
Ao longo do processo, ela também aprendeu a reconhecer estratégias próprias, como o hiperfoco, períodos de intensa concentração. “Consigo produzir muito em pouco tempo. Só porque não é o padrão, não significa que esteja errado”, afirma.
A experiência levou Mara a defender mudanças mais amplas. Para ela, uma sociedade mais flexível, com ambientes menos estimulantes e horários adaptáveis, não beneficia apenas pessoas com TDAH, mas todos que não se encaixam em modelos rígidos de produtividade.