O selênio ganhou destaque nos últimos anos e passou a figurar com frequência em conteúdos nas redes sociais, suplementos alimentares e recomendações informais de saúde. Apontado como aliado da imunidade, da fertilidade e da tireoide, o mineral se tornou tema de debates que misturam evidências científicas consolidadas com interpretações que nem sempre encontram respaldo na literatura médica.
Do ponto de vista científico, o selênio é um micronutriente essencial, envolvido em processos metabólicos importantes. No entanto, especialistas alertam que sua popularização ocorreu de forma mais rápida do que a consolidação das evidências, especialmente quando o assunto são benefícios amplos ou preventivos.
O debate se intensifica no campo das doenças da tireoide, condições bastante prevalentes na população. Estima-se que centenas de milhões de pessoas no mundo convivam com algum distúrbio dessa glândula. No Brasil, projeções indicam que mais da metade da população poderá apresentar alguma alteração tireoidiana ao longo da vida.
Responsável pela produção dos hormônios T3 e T4, a tireoide regula o metabolismo, influencia a fertilidade e interfere diretamente no funcionamento de órgãos vitais, como coração e cérebro. Entre os problemas mais comuns estão o hipotireoidismo, caracterizado pela produção insuficiente de hormônios, e o hipertireoidismo, quando ocorre produção excessiva.
A relação entre selênio e a tireoide
Pesquisas iniciadas na década de 1990 identificaram que o selênio faz parte de enzimas envolvidas na ativação dos hormônios tireoidianos. A partir daí, o mineral passou a ser estudado como possível aliado no manejo de doenças da tireoide, sobretudo aquelas de origem autoimune.
Estudos observacionais indicam que níveis baixos de selênio podem estar associados a maior risco de alterações benignas da glândula e a doenças autoimunes, como a tireoidite de Hashimoto e a doença de Graves. Em alguns pacientes, especialmente nos quadros mais graves, a suplementação associada ao tratamento convencional demonstrou potencial para reduzir sintomas e melhorar a qualidade de vida.
Apesar desses achados, especialistas reforçam que tais benefícios não justificam o uso indiscriminado. A presença de resultados positivos em grupos específicos não significa que a suplementação seja indicada para toda a população.
Mitos e promessas sem comprovação
Entre os equívocos mais comuns está a ideia de que o selênio fortalece o sistema imunológico de forma ampla e previne doenças. Na prática, ele é necessário para o funcionamento adequado do organismo, mas não há evidência de que doses acima do recomendado tragam benefícios adicionais para pessoas sem deficiência.
Outro ponto recorrente é a suposta ação protetora contra câncer e doenças cardiovasculares. Ensaios clínicos de grande escala não confirmaram essa hipótese de forma consistente. Em alguns contextos, a suplementação excessiva chegou a ser associada a efeitos adversos.
O consenso médico é que, em grande parte da população, a alimentação habitual já fornece quantidades adequadas de selênio, tornando desnecessário o uso de suplementos.
Gestantes e situações específicas
No caso das gestantes, a cautela é ainda maior. Diretrizes internacionais não recomendam a suplementação rotineira de selênio em grávidas com doenças autoimunes da tireoide, citando resultados inconsistentes e riscos potenciais associados a doses elevadas.
Estudos mais recentes sugerem que níveis muito baixos do mineral podem estar ligados a desfechos desfavoráveis da gestação e ao aumento do risco de tireoidite no pós-parto. Ainda assim, os efeitos da suplementação variam conforme o nível basal de selênio, a atividade da doença e o acompanhamento médico, o que impede recomendações generalizadas.
Revisões científicas apontam que, quando há deficiência comprovada, a reposição controlada pode contribuir para redução de autoanticorpos e melhora discreta da qualidade de vida, sempre como complemento ao tratamento medicamentoso.
Quando o excesso se torna um problema
O selênio é obtido principalmente pela alimentação, presente em carnes, frutos do mar, ovos, grãos e, em alta concentração, na castanha-do-pará. A recomendação diária para adultos é de 55 microgramas, com variação para gestantes e lactantes. O limite máximo seguro é de 400 microgramas por dia.
Ultrapassar esse limite pode trazer consequências. A ingestão excessiva está associada a queda de cabelo, unhas frágeis, fadiga, distúrbios gastrointestinais e alterações cutâneas. Em casos mais graves, há registros de comprometimento neurológico, renal e cardíaco.
Diante desse cenário, especialistas reforçam que a suplementação de selênio deve ser indicada apenas após avaliação clínica e exames laboratoriais. As evidências atuais mostram que o mineral pode ter papel complementar em situações específicas, mas o alerta permanece: mais selênio não significa mais saúde.