A Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou, nesta sexta-feira (28), o primeiro conjunto de diretrizes globais voltadas exclusivamente à prevenção, ao diagnóstico e ao tratamento da infertilidade. O material reúne orientações técnicas destinadas a governos, profissionais e sistemas de saúde, com o objetivo de ampliar o acesso ao cuidado reprodutivo e reduzir desigualdades no atendimento.
Segundo a OMS, a infertilidade continua sendo uma condição amplamente subdiagnosticada e pouco contemplada em políticas públicas, o que expõe milhões de pessoas a sofrimento emocional, estigma social e custos elevados na busca pela gestação. A entidade estima que uma em cada seis pessoas em idade reprodutiva enfrenta dificuldades para engravidar.
As novas diretrizes reforçam que parte dos fatores relacionados à infertilidade pode ser prevenida com medidas simples e de baixo custo. A OMS recomenda que informações sobre fertilidade sejam incorporadas ao cotidiano das escolas, unidades básicas de saúde e serviços de saúde sexual e reprodutiva.
O documento também destaca a necessidade de aconselhamento para abandono do tabagismo, especialmente entre mulheres, devido ao impacto direto do cigarro sobre a capacidade reprodutiva. A atenção às infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) é outro ponto crítico: infecções não tratadas podem causar obstruções e danos irreversíveis, elevando o risco de infertilidade.
Diagnóstico deve priorizar custo-efetividade e evitar exames desnecessários
No campo do diagnóstico, a OMS orienta uma investigação racional e economicamente viável.
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Em mulheres com ciclos menstruais regulares, a ovulação deve ser confirmada preferencialmente por dosagem de progesterona, e não por ultrassonografia.
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Para avaliar a reserva ovariana, a idade é descrita como principal indicador. Testes como AMH, FSH do 2º/3º dia e contagem de folículos só devem ser solicitados quando houver justificativa adicional.
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A avaliação das tubas uterinas pode ser feita por histerossalpingografia (HSG) ou HyCoSy, enquanto alterações da cavidade devem ser examinadas pela sonohisterografia (SIS).
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Em homens, o espermograma só deve ser repetido quando houver parâmetros alterados — e sempre após, no mínimo, 11 semanas.
Tratamento: SOP, varicocele, doença tubária e infertilidade sem causa aparente
Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP)
Para mulheres com infertilidade por anovulação relacionada à SOP, o medicamento letrozol deve ser a primeira escolha. Mudanças no estilo de vida continuam fazendo parte essencial do cuidado.
Se não houver resposta aos medicamentos orais, o uso de gonadotrofinas é preferível ao “drilling” ovariano. Em falhas persistentes, recomenda-se partir para a fertilização in vitro (FIV).
Doença tubária
Mulheres com menos de 35 anos e doença tubária leve ou moderada podem ser beneficiadas por cirurgia antes da FIV. Nos casos graves ou acima dessa faixa etária, a FIV é considerada a melhor opção. Em situações com hidrossalpinge, a OMS orienta salpingectomia ou oclusão tubária antes da FIV.
Alterações uterinas
A remoção de septo uterino não deve ser indicada quando não há histórico de perdas gestacionais recorrentes.
Fator masculino
Para homens com varicocele clínica, a diretriz sugere tratamento cirúrgico ou radiológico — com preferência pela microcirurgia, quando disponível.
A OMS afirma que ainda não há evidências robustas que sustentem recomendações sobre o uso de antioxidantes.
Infertilidade inexplicada
O tratamento deve seguir três etapas:
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Manejo expectante por 3 a 6 meses;
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Inseminação intrauterina estimulada (IUI) com clomifeno ou letrozol;
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Fertilização in vitro, preferencialmente pelo método convencional, e não por ICSI.
Diretrizes devem ser ajustadas conforme a realidade de cada país
A OMS ressalta que as recomendações precisam ser adaptadas às características epidemiológicas, sociais e econômicas de cada país. Entre as ações estruturais recomendadas estão:
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inclusão da infertilidade como parte oficial das políticas públicas de saúde;
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capacitação de equipes profissionais;
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incorporação de medicamentos de fertilidade em listas de essenciais;
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criação de sistemas de registro e monitoramento;
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fortalecimento da vigilância em saúde reprodutiva.
A organização também reforça que o cuidado em fertilidade deve priorizar direitos reprodutivos, e não metas populacionais. Em futuras atualizações, a diretriz incluirá temas como preservação da fertilidade, reprodução assistida com terceiros (doação de gametas e útero solidário), impactos ambientais e apoio psicossocial.