Conduzida pela Weill Cornell Medicine em parceria com centros de referência como o Memorial Sloan Kettering e o Parker Institute, a investigação oferece uma explicação inédita para casos em que a imunoterapia perde eficácia.
O oncologista Stephen Stefani, do grupo Oncoclínicas, destaca a relevância do achado ao afirmar que “a imunoterapia transformou a oncologia na última década, mas ainda enfrentamos o desafio da perda de resposta. Este estudo aponta um caminho para superar esse limite.”
Células T: como o corpo tenta combater o tumor
No coração do sistema imunológico estão as células T, um tipo de glóbulo branco treinado para reconhecer e eliminar ameaças. Elas são fundamentais em tratamentos modernos, que buscam liberar sua ação contra o câncer.
Com o avanço da doença, contudo, essas células entram em um estado de desgaste profundo. A exaustão imunológica, como é chamada, faz com que elas continuem identificando o tumor, mas sem força suficiente para atacá-lo.
O papel inesperado da molécula CD47
Durante a investigação, os cientistas voltaram a atenção para a molécula CD47, geralmente associada a mecanismos usados por tumores para escapar do sistema imune. Conhecida como o “sinal do não me coma”, ela impede que macrófagos devorem células suspeitas.
O que surpreendeu a equipe foi observar que células T exaustas também começam a produzir grandes quantidades dessa molécula. Em outras palavras, elas passam a emitir um próprio comando de autodesativação.
Experimentos com camundongos reforçaram a hipótese: animais que não possuíam CD47 nas células T desenvolveram tumores menores e apresentaram respostas imunológicas mais intensas.
A influência decisiva da proteína TSP-1
Para entender o que ativa esse processo, os pesquisadores se debruçaram sobre moléculas presentes no microambiente tumoral. Foi assim que identificaram a TSP-1, uma proteína liberada principalmente por tumores metastáticos.
Quando a TSP-1 se associa ao CD47 nas células T, ocorre um bloqueio direto de sua capacidade de combate, como se o tumor emitisse um comando de rendição.
Essa descoberta levou o pesquisador Taha Merghoub a declarar que “desativar CD47 ou eliminar TSP-1 resultava no mesmo efeito: células menos exaustas. Foi um momento decisivo para entendermos o eixo que sustenta esse processo.”
Como bloquear o mecanismo que desliga as células T
Com o alvo identificado, a equipe partiu para a fase de intervenção. A estratégia envolveu o uso do peptídeo experimental TAX2, projetado para impedir a ligação entre TSP-1 e CD47.
Esse tipo de molécula funciona como uma peça que ocupa o encaixe antes do tumor, evitando que o sinal de desligamento seja enviado às células T. Nos testes, o TAX2 conseguiu restaurar funções essenciais do sistema imune.
Os resultados incluíram maior produção de citocinas, maior infiltração das células no tumor e redução do crescimento de cânceres como melanoma e colorretal. A resposta foi ainda mais forte quando combinada com imunoterapia anti-PD1.
Possíveis impactos para o tratamento de pacientes
Caso os resultados sejam confirmados em humanos, a descoberta pode ampliar os horizontes da oncologia ao:
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restabelecer a ação do sistema imunológico em pacientes que perderam resposta;
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fortalecer a eficácia de tratamentos existentes;
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criar novas estratégias de combinação para imunoterapia;
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reduzir a exaustão das células T em tumores agressivos e metastáticos.
A perspectiva entusiasma o grupo de pesquisa, que busca agora transformar o bloqueio do eixo CD47–TSP-1 em medicamentos viáveis para testes clínicos.
O que vem pela frente
A criação de compostos seguros para uso humano é o próximo passo, segundo os autores. Stefani reforça a urgência em avançar:
“Cada avanço nos aproxima de terapias mais potentes e acessíveis. O impacto social, emocional e econômico do câncer torna essa corrida ainda mais necessária.”