O tratamento do câncer de próstata passa por uma das maiores evoluções das últimas décadas. Tecnologias que antes eram restritas a grandes centros, como cirurgias robóticas e testes genéticos, começam a se espalhar pelo país e a mudar a maneira como médicos diagnosticam e tratam o tumor mais frequente entre homens.
A cirurgia robótica, oficialmente incorporada ao Sistema Único de Saúde (SUS) em outubro de 2025, representa um dos avanços mais significativos. A técnica permite intervenções menos invasivas, com menor risco de sangramento e redução importante de efeitos colaterais como impotência e incontinência urinária. Os hospitais têm até 180 dias para implantar o serviço, que será oferecido inicialmente para casos localizados ou clinicamente avançados.
Para especialistas, a inovação marca um novo padrão de cuidado. “As cirurgias ficaram mais seguras e delicadas, preservando nervos essenciais para ereção e continência”, afirma o urologista Vinicius Paníco, do Instituto Lado a Lado pela Vida. Pesquisas realizadas pelo Hospital das Clínicas da USP indicam até 25% de queda no risco de impotência após a cirurgia realizada por robô.
Apesar do avanço, o acesso ainda é desigual. Enquanto na rede privada a técnica já é amplamente adotada, no SUS será introduzida de forma gradual. “O desafio é fazer com que essa tecnologia chegue a todos, e não apenas a uma parcela dos pacientes”, completa Paníco.
Essa transformação acompanha uma mudança na própria forma de tratar a doença. Segundo o oncologista Raphael Brandão, diretor da Clínica First, a personalização tornou-se a regra. “Hoje, o foco é prolongar a vida com qualidade, reduzindo efeitos adversos e preservando a função sexual.”
Genômica permite diagnósticos mais precisos e evita tratamentos desnecessários
Outra ferramenta que vem ganhando espaço é a genômica. Testes moleculares analisam mutações específicas do tumor e ajudam a prever se a doença terá evolução lenta ou comportamento agressivo. O resultado orienta decisões importantes, como indicar apenas vigilância ativa ou optar por terapias mais intensivas.
“Os tumores não se comportam da mesma forma. A genômica nos permite escolher o tratamento ideal para cada paciente”, explica o oncologista Igor Morbeck, também do Instituto Lado a Lado pela Vida. Ele destaca que homens com histórico familiar de câncer de próstata, mama ou colorretal devem ser avaliados por oncogenética, já que muitos diagnósticos em jovens têm origem hereditária.
Novas drogas ampliam o controle do câncer avançado
Para casos em que o tumor deixa de responder à hormonioterapia tradicional, medicamentos de nova geração têm ampliado as opções terapêuticas. Fármacos como apalutamida, enzalutamida, abiraterona e darolutamida conseguem bloquear vias hormonais que o tumor usa para continuar crescendo.
“Essas terapias reduzem risco de metástase e aumentam a sobrevida de pacientes, inclusive daqueles que já apresentam câncer metastático”, explica o urologista Maurício Cordeiro, da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU). As drogas, segundo ele, têm perfil de toxicidade baixo e impacto direto na qualidade de vida.
O avanço tecnológico ocorre em um momento de alerta global. Estudo publicado pela revista The Lancet projeta que os casos de câncer de próstata devem dobrar até 2040, alcançando cerca de 2,9 milhões por ano. As mortes também devem aumentar em 85%, impulsionadas por envelhecimento da população, maior expectativa de vida e fatores de risco como obesidade e sedentarismo.
Diagnóstico precoce segue sendo o maior desafio
Embora as tecnologias tragam novos caminhos de tratamento, especialistas alertam que o maior obstáculo continua sendo o diagnóstico tardio. Em 2025, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 71,7 mil novos casos da doença no Brasil e cerca de 17,5 mil mortes.
“A diferença entre o paciente do SUS e o da rede privada é enorme. Na saúde pública, muitos chegam com tumores já avançados por falta de rastreamento regular”, afirma Paníco. Já na rede privada, exames de rotina costumam identificar a doença cedo, quando a chance de cura supera 90%.
A recomendação segue clara: PSA e toque retal, realizados de forma orientada e individualizada, permanecem como as principais ferramentas para detectar o câncer antes do aparecimento de sintomas e garantir tratamentos menos agressivos.