Uma descoberta no Cerrado brasileiro pode mudar a forma como produtores enfrentam doenças causadas por fungos no solo. Fruto de uma parceria entre a Embrapa Milho e Sorgo (MG) e a empresa Simbiose, o biofungicida Eficaz Control é o primeiro no Brasil a empregar a bactéria Paenibacillus ottowii no controle biológico de fitopatógenos. Testes indicam que o produto atinge até 80% de eficácia no combate a fungos responsáveis pela podridão de raízes e colmos em culturas como milho e soja.
Segundo a pesquisadora Christiane Abreu de Oliveira Paiva, da Embrapa, as cepas selecionadas têm origem no município de Sete Lagoas (MG), e demonstraram resultados promissores desde os primeiros testes. A Simbiose, responsável pela formulação final do produto, investiu em ensaios de campo por todo o Brasil a partir de 2020, comparando o bioinsumo a fungicidas químicos convencionais.
“Em todas as regiões testadas, o Eficaz Control superou os fungicidas químicos tanto na prevenção quanto no controle das doenças, e também no ganho de produtividade”, afirmou Artur Soares, diretor de P&D da Simbiose.
O lançamento oficial do produto está marcado para o dia 5 de agosto, durante o Congresso da Andav (Associação Nacional dos Distribuidores de Insumos Agrícolas e Veterinários), no Transamérica Expo Center, em São Paulo.
Alternativa sustentável e economicamente viável
Além de sua eficácia, o Eficaz Control traz vantagens operacionais e ambientais. Por ser aplicado diretamente no tratamento de sementes, oferece proteção desde o início do desenvolvimento das plantas, evitando perdas precoces e reduzindo custos com pulverizações posteriores.
Rodrigo Véras, pesquisador da Embrapa, destaca que o biofungicida se diferencia das abordagens tradicionais, como o controle químico e a rotação de culturas, que nem sempre são eficazes contra fungos de solo. “Esses microrganismos atacam regiões de difícil acesso e são altamente destrutivos, especialmente na cultura do milho. O controle biológico surge como uma alternativa mais prática e eficiente”, pontua.
Além disso, o biofungicida não exige registro específico para cada cultura agrícola, como ocorre com produtos químicos. Isso amplia seu uso em diversas lavouras afetadas por fungos similares. Segundo Marcelo de Godoy Oliveira, CEO da Cogny (grupo ao qual a Simbiose pertence), essa flexibilidade deve impulsionar o crescimento do mercado de biológicos no Brasil, hoje ainda dominado por multinacionais e com baixo índice de adoção.
“Cerca de 40 milhões de hectares de soja no Brasil usam químicos, contra apenas 1,5 milhão com biológicos. Queremos ampliar essa proporção e democratizar o acesso a soluções sustentáveis”, afirma Oliveira.
Parceria público-privada que gera inovação
O desenvolvimento do Eficaz Control é resultado de uma estreita colaboração entre ciência pública e iniciativa privada. Alexandre Ferreira da Silva, chefe-adjunto de Transferência de Tecnologia da Embrapa Milho e Sorgo, ressalta o valor estratégico das parcerias: “Os bioinsumos são fundamentais para uma agricultura mais sustentável e produtiva. Com apoio do setor privado, conseguimos acelerar sua chegada ao mercado”.
A equipe da Embrapa envolvida no projeto é composta por mais de uma dezena de especialistas, incluindo pesquisadores das áreas de microbiologia, fitopatologia e melhoramento genético. O trabalho coletivo rendeu não só um produto inovador, mas também um avanço no conhecimento científico sobre o uso de microrganismos nativos do Cerrado para o controle de doenças agrícolas.
Equipe de pesquisa da Embrapa Milho e Sorgo:
Christiane Abreu de Oliveira Paiva, Luciano Viana Cota, Rodrigo Véras da Costa, Dagma Dionísia da Silva Araújo, Maria Lúcia Ferreira Simeone, Sylvia Morais Sousa Tinoco, José Edson Fontes Figueiredo, Ubiraci Gomes de Paula Lana, Ivanildo Evodio Marriel, Eliane Aparecida Gomes, Maycon Campos Oliveira, Paulo Eduardo França de Macedo, Reinaldo Vasco Junior, Denio Alves de Deus e a bolsista Gisele Diniz.